Há quase dois anos, a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento recebeu a notícia de que estava grávida, após um longo período de espera. No entanto, sua felicidade durou pouco, pois descobriu que não poderia ter a gestação que tanto desejava.
“Em menos de três dias, vivi o dia mais feliz e o dia mais triste da minha vida. Menos de um mês depois, estava com um câncer derivado da gestação. Foi extremamente difícil, nunca imaginamos passar por isso”, recorda-se Daiana.
No primeiro ultrassom, Daiana descobriu que sua gravidez era, na verdade, uma “mola”, ou doença trofoblástica gestacional. Este é um tipo de tumor benigno que, em certos casos, pode evoluir para um câncer de placenta maligno, como ocorreu com ela.
O que é mola gestacional?
A mola gestacional surge devido a um problema na fertilização. No caso de mola incompleta, há a fecundação de um óvulo normal por dois espermatozoides ou por um espermatozoide com o DNA duplicado, originando uma placenta defeituosa, acompanhado muitas vezes de um embrião com anomalias genéticas que inviabilizam a vida.
Já a mola completa ocorre quando um óvulo sem DNA é fecundado, levando à formação apenas de uma placenta anormal, sem embrião.
Em ambos os casos, é necessário interromper a gestação e remover a mola, para evitar complicações como sangramento uterino e alterações hormonais.
O efeito mais preocupante da doença trofoblástica é o câncer de placenta, que ocorre quando as células da mola se fixam no útero. Esse risco está presente em menos de 5% das mulheres com mola parcial, mas para aquelas com mola completa, uma em cada cinco desenvolvem câncer.
O professor Antônio Braga, obstetra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional, explica que uma em cada 200 a 400 grávidas no Brasil enfrenta essa condição. Nos EUA, a incidência é de uma em cada mil, e na Inglaterra, de uma em duas mil.
“Estamos investigando as causas dessas diferenças, que podem ser genéticas, imunológicas ou relacionadas à dieta, mas ainda não há conclusões definitivas”, afirma Braga.
Acompanhamento
A retirada da mola por aspiração uterina é apenas o início de um processo de acompanhamento rigoroso. Após a remoção, a paciente é submetida a exames periódicos para monitorar os níveis do HCG, hormônio produzido durante a gravidez, que também serve como marcador tumoral.
“Esse é o único câncer onde o diagnóstico não é histopatológico, mas sim identificado pelo hormônio da gravidez”, detalha Braga.
Se o HCG não normalizar após a interrupção da gravidez, indicará que as células da mola se instalaram no útero, requerendo tratamento quimioterápico.
“A maioria das mulheres que recebem tratamento adequado se cura e pode engravidar novamente”, diz o médico e pesquisador.
A terapeuta Daiana e seu esposo, Lucas Felipe, estão esperançosos. Após terminar o tratamento de quimioterapia e normalizar o HCG, ela ainda precisa esperar algum tempo antes de tentar uma nova gestação.
Histerectomia
Em alguns casos, como o de Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que ocorreu aos 45 anos, pode ser indicada a histerectomia – remoção do útero –, principalmente se a paciente já tem filhos ou não deseja mais engravidar.
Mônica experimentou a perda gestacional seguida pelo desenvolvimento do câncer de placenta.
“Receber o diagnóstico de câncer foi aterrorizante, mas com o apoio da família e amigos, consegui passar pelo tratamento com leveza”, relata Mônica, que hoje monitora sua saúde anualmente.
Acolhimento
No hospital, o suporte inclui acompanhamento psicológico e social, além de terapias complementares, como música. Gabriela Paiva, médica do ambulatório, enfatiza a importância desse apoio:
“As mulheres chegam fragilizadas. Explicamos que a situação é fortuita e que elas não estão sozinhas”, observa Gabriela.
Para Daiana, o tratamento exigiu pausas em sua vida profissional e viagens frequentes para consultas, dado que mora a 141 km do centro médico especializado. Recentemente, descobriu a gratuidade nos transportes intermunicipais, facilitando sua rotina.
A médica Gabriela Braga ressalta o apoio comunitário entre as pacientes, reforçando que a experiência no hospital ajuda a lidar com essa condição desconhecida por muitos.
Além da assistência médica, o hospital proporciona uma rede de apoio, incluindo familiares que também devem cuidar do seu bem-estar emocional para oferecer suporte adequado aos pacientes.
