No mundo corporativo, uma prática controversa chamada blackwashing vem sendo discutida com mais frequência. O conceito refere-se a estratégias de comunicação adotadas por algumas empresas para transmitir a imagem de que elas apoiam a igualdade racial, sem que implementem alterações significativas em suas práticas. A organização não governamental ACT Promoção da Saúde conduziu uma pesquisa detalhada sobre o tema, questionando se as corporações realmente se engajam na causa racial.
Entendendo o blackwashing
O termo blackwashing, em tradução livre, pode ser visto como uma “maquiagem” de imagem que empresas adotam com relação à pauta racial para, no fim, obter vantagens financeiras. Ele é comparável ao greenwashing, que trata de pretensas ações ambientais, e ao pinkwashing, ligado ao uso de questões LGBTQIA+ para ganhos de imagem.
A pesquisa conduzida pela ACT indica que o blackwashing atua como uma estratégia corporativa que manipula a necessidade de justiça racial para camuflar a busca de lucro. A prática recebe críticas por projetar um falso engajamento em questões de justiça racial, sem realmente combater as desigualdades raciais de forma estrutural.
Os métodos do blackwashing
O levantamento da ONG identificou oito práticas de blackwashing realizadas por empresas:
- Divulgação seletiva: Empresas promovem melhorias em áreas específicas relacionadas a questões raciais, sem mencionar onde elas falham ou não progrediram.
- Políticas e reivindicações vazias: As empresas divulgam políticas anunciadas como transformadoras, mas que têm pouca ou nenhuma capacidade de implementar mudanças efetivas.
- Certificações duvidosas: Obtêm certificações de terceiros para atribuirem qualidades positivas à marca em relação à inclusão racial.
- Apoio e parceria com ONGs cooptadas: Colaboram com organizações apenas para aparentar credibilidade na busca por equidade racial.
- Programas voluntários sem eficiência: Criam programas de promoção da equidade racial com pouca aplicação prática.
- Narrativas e discursos enganosos: Lançam campanhas que visam posicionar a empresa como antirracista, sem respaldo histórico.
- Marcas enganosas: Utilizam logos e influenciadores para passar a impressão de serem comprometidas com o antirracismo.
- Acessar e influenciar a formulação de políticas: Buscam influenciar decisões políticas sobre equidade racial enquanto não promovem internamente essas mudanças.
Falta de representatividade nas empresas
A pesquisa também destacou a falta de pessoas negras, especialmente mulheres, em cargos de liderança nas grandes empresas do Brasil. Dados do Instituto Ethos revelam que, embora 55,5% da população brasileira seja composta por pessoas que se declaram pretas ou pardas, esses grupos ocupam menos de 6% dos conselhos e menos de 14% dos cargos executivos nas empresas.
O estudo critica o fato de que muitas companhias divulgam iniciativas de diversidade, mas falham em fornecer transparência sobre a composição racial de suas lideranças. Para os pesquisadores, combater o blackwashing requer estratégias que vão além de simples denúncias, sendo necessária uma reestruturação para lidar com as raízes do problema.
