No Brasil, a inclusão digital avança em passos lentos e desiguais, como destacado em uma pesquisa recente. O estudo revelou que 59,2% dos lares brasileiros não possuem computadores ou tablets, evidenciando uma barreira significativa no acesso às tecnologias. O contraste é ainda mais evidente em comunidades de baixa renda, como o Pilar, no Recife, localizado próximo ao pujante Porto Digital. Neste cenário, desafios persistem em proporcionar acesso igualitário e pleno às ferramentas tecnológicas essenciais no mundo atual.
Desigualdade Digital no Recife
Mesmo estando geograficamente perto do Porto Digital, um dos maiores polos de tecnologia no Brasil, a comunidade do Pilar enfrenta um mundo de desvantagens. Historicamente, o Pilar surgiu das ocupações de terrenos por indivíduos sem moradia ou deslocados à força de outras áreas. Com o tempo, as cerca de 600 famílias do Pilar se caracterizaram como majoritariamente negras (73%) e chefiadas por mulheres (76%), com muitos dependendo de trabalhos informais para sobreviver. Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, descreve o complexo como uma “plataforma de inovação” acolhendo mais de 500 empresas e seis incubadoras aceleradoras. No entanto, essa proximidade física não remove as dificuldades que os moradores enfrentam.
Internet e seus Limites
Embora cerca de 90,5% dos brasileiros utilizem a internet, a qualidade e a forma de acesso variam amplamente. Apenas 86% dos lares possuem simultaneamente banda larga fixa e móvel, enquanto outros 10,7% dependem apenas de dados móveis. Isto representa um problema como explica Flávia Lefrève, advogada especialista em telecomunicações. Ela destaca que a dependência por planos de telefonia móvel é insustentável devido às limitações de dados. Esses planos frequentemente oferecem pacotes de dados pequenos que, uma vez esgotados, deixam os usuários sem acesso à internet, contrariando o Marco Civil da Internet, que proíbe tal interrupção sem razões como inadimplência.
Educação e Empregabilidade em Risco
O desenvolvimento da comunidade é prejudicado por essa falta de acesso adequado à tecnologia. O Pilar Universitário oferece bolsas integrais em instituições de ensino superior. No entanto, como testemunhado por Eurídize Lima de Santana, que precisou trancar seu curso por falta de um computador, as dificuldades persistem. A jovem, que iniciou o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas em 2024, afirma que um computador básico exigido para suas atividades acadêmicas custa cerca de R$ 3,5 mil, valor inacessível para quem vive com um ou pouco mais de um salário mínimo mensal.
Desafio de Fornecimento de Serviços
A pesquisa PNAD-TIC de 2025 ilustra que apesar do aumento no uso de internet, aplicações de empresas de tecnologia como a Meta são predominantes devido às restrições de franquias de dados. Isso impacta especialmente as classes C, D e E, que frequentemente só conseguem acessar as redes sociais. Neste cenário, Flávia Lefrève e a Coalizão de Direitos da Rede questionam o Ministério da Justiça sobre o bloqueio ao acesso e a quebra de neutralidade da rede, mas ainda aguardam respostas concretas sobre ações tomadas.
A desigualdade no acesso à tecnologia não só limita oportunidades econômicas e educacionais, mas também impede o pleno exercício da cidadania na era digital. Desta forma, superar as barreiras de inclusão digital no Brasil é um passo fundamental para promover igualdade e desenvolvimento para todas as comunidades.
