A relação entre mudanças climáticas e o aumento de doenças infecciosas no Brasil já é visível, com a dengue e a febre do oropouche apresentando uma disseminação preocupante em várias regiões do país. Essas doenças, antes limitadas a certas áreas geográficas, agora se espalham de maneira mais intensa devido às alterações climáticas.
Dengue
Desde os anos 1980, o Brasil registra surtos de dengue, mas um acontecimento marcante foi registrado em 2007, quando o Rio Grande do Sul teve seu primeiro caso autóctone da doença. O Aedes aegypti, mosquito vetor da dengue, prospera em ambientes quentes e úmidos, e a mudança climática tem eliminado as barreiras naturais que inibiam sua propagação em regiões mais frias. Em 2024, o Brasil experimentou um recorde no número de casos de dengue, com o Rio Grande do Sul registrando quase 210 mil infecções e 281 mortes. Na Bahia, com clima geralmente quente e uma população maior, foram confirmados cerca de 163 mil casos, resultando em 188 óbitos.
Um estudo da Fiocruz revelou que entre 2006 e 2024 o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue duplicou de 110 para 292, abrangendo metade do território nacional. A pesquisa associou essas mudanças à maior frequência de anomalias térmicas, que são variações significativas de temperatura que contribuem para o aumento dos casos de dengue a longo prazo.
Febre do Oropouche
A febre do oropouche, inicialmente restrita à Região Amazônica, também está se espalhando rapidamente pelo Brasil. Em 2023, mais de 12 mil infecções foram registradas em 23 estados e no Distrito Federal. Embora a relação entre clima e a doença ainda esteja sob investigação, acredita-se que mudanças nos padrões de temperatura e precipitação, juntamente com a degradação ambiental, estejam facilitando essa disseminação.
Especialistas estão preocupados com as consequências de eventos climáticos extremos, que são cada vez mais frequentes. Na presença do fenômeno El Niño, como previsto, os riscos de aumento de casos de chikungunya e dengue são ainda mais elevados no Brasil.
Fungos
As mudanças climáticas também estão afetando seriamente as doenças fúngicas. Fungos estão se adaptando a novas condições ambientais, quebrando a barreira de temperatura que antes os impedia de afetar humanos. Segundo a professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo, essa adaptação está resultando no surgimento de fungos potencialmente patogênicos.
Um exemplo notável é a Candida auris, identificada inicialmente na década de 1990, que agora se destaca por sua resistência a condições adversas e tratamentos convencionais. Desde que surgiu no Brasil em 2020, foram registradas 24 ocorrências, todas em unidades hospitalares, com uma alta taxa de mortalidade. Outro fungo emergente é o Trichophyton indotineae, resistente a antifúngicos, o que o torna um desafio para o tratamento.
Os eventos climáticos extremos não só promovem a adaptação de fungos como aumentam a vulnerabilidade das populações humanas a patógenos que antes estavam contidos a regiões específicas. Com o aumento do uso de fungicidas nas plantações devido a condições climáticas adversas, estamos acelerando inadvertidamente a seleção de cepas resistentes, complicando ainda mais o cenário de combate a essas infecções.
