Após duas décadas de espera, a comunidade quilombola do Machadinho, situada em Paracatu, Minas Gerais, busca reparação pelos danos sofridos pela instalação de uma mineradora em suas terras. Claudinês Lopes, de 32 anos e presidente da associação de moradores, recorda como sua avó, Antônia, sonhava com justiça após ser forçada a deixar sua terra natal devido às operações da canadense Kinross Gold Corporation. Esta multinacional ocupa o território com estrutura para exploração de ouro e prata, conhecida como Morro do Ouro.
Iniciativas do Ministério Público Federal (MPF)
Na última semana, o procurador regional da República, José Adércio Leite Sampaio, esteve em Paracatu para tentar um acordo que possa compensar as comunidades quilombolas afetadas, incluindo Machadinho, Amaros e São Domingos. As discussões envolvem cerca de 1,3 mil famílias, que enfrentam danos ligados ao ambiente, território e cultura, buscando reconhecimento oficial, garantia de direitos territoriais e critérios para indenizações e reassentamentos.
Durante sua visita, Sampaio inspecionou as operações da mineradora, dialogou com representantes das comunidades e se reuniu com cerca de 400 moradores do Quilombo do Machadinho. Ele afirmou que o MPF está comprometido em encontrar uma solução que restaure a dignidade dos atingidos e ofereça a reparação integral exigida por eles.
Expectativas e dificuldades jurídicas
O advogado Guilherme Bicalho, que atua em defesa das comunidades, lamenta a decisão desfavorável em um julgamento realizado em agosto, contra as indenizações para os quilombolas. O procurador conseguiu suspensão do processo por 60 dias, esperando alcançar um acordo até novembro. O valor da indenização pode situar-se entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão.
Sampaio enfatiza que a negociação não flexibiliza as exigências, mas assegura direitos ao território e condições justas para quem diariamente lida com os impactos adversos da mineração. Em 2025, a Kinross teve um lucro líquido global de US$ 2,39 bilhões, cerca de 30% originados de suas operações mineiras. Além disso, a mineradora reforça sua capacidade de rejeitos, que é extremamente elevada em comparação às tragédias como a de Brumadinho, em 2019.
Impactos e vulnerabilidade das comunidades
As práticas da mineradora geram poluição e problemas de saúde na área. Estudos indicaram altas concentrações de arsênio em amostras de urina dos moradores e no ar, provocando situações alarmantes. Foram afetadas 600 famílias do Machadinho, 500 de Amaros e 186 de São Domingos – todos perderam suas terras. O processo de regularização iniciado pelo Incra foi paralisado devido à ocupação.
Claudinês Lopes explica que os moradores hoje residem longe de seus territórios de origem, vivendo em condições vulneráveis em diversos lugares. Ela espera que, finalmente, a justiça seja alcançada para as famílias que tanto lutaram.
Resistência cultural e legado
Muitos ainda guardam as lembranças de um tempo e estilo de vida que foram modificados pelas operações da mineradora. As tradições são mantidas como forma de resistência cultural. Maria Hermínia Rodrigues, professora e líder da comunidade de Amaros, ressalta que o ensinamento e as manifestações culturais continuam a reforçar suas identidades, mesmo em meio às dificuldades.
A Kinross, em comunicado, disse respeitar o processo jurídico e os trâmites administrativos conduzidos por autoridades competentes, sem comentar diretamente sobre o caso em julgamento. A empresa afirma manter um canal aberto de comunicação e se diz disposta a dialogar com todas as partes envolvidas.
