O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou um estudo que destaca a exposição de crianças e adolescentes a desafios ambientais e climáticos no Brasil. De acordo com a pesquisa, existem padrões significativos de desigualdade na distribuição dos riscos. O “Painel Crianças e Meio Ambiente” foi lançado em parceria com a organização de saúde global Vital Strategies.
O levantamento identificou 333 municípios em situação de maior vulnerabilidade socioambiental e climática, representando 6% das cidades brasileiras. A plataforma considera 14 indicadores de exposição ambiental, organizados em quatro áreas temáticas:
- Qualidade do Ar;
- Infraestrutura Ambiental e Urbana;
- Eventos Climáticos Extremos;
- Ambiente Escolar.
Danilo Moura, especialista em Mudanças Climáticas do Unicef, esclareceu em uma entrevista concedida à TV Brasil que as crianças, em eventos extremos, dependem dos seus cuidadores para tomar ações necessárias, pois muitas vezes não têm capacidade para reconhecer situações de risco.
Riscos
O painel abrange diversas questões, como chuvas intensas, ondas de calor, secas recentes, ausência de água tratada ou coleta de esgoto e poluição do ar acima dos padrões da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os indicadores são classificados em três níveis de prioridade:
- Nível 3: demanda atenção imediata;
- Nível 2: requer planejamento a curto e médio prazo;
- Nível 1: necessita apenas de monitoramento contínuo.
Os 333 municípios com alta prioridade ou nível 3 em mais de dez dos 14 indicadores enfrentam uma vulnerabilidade severa e multidimensional, frequentemente localizados no Norte e Maranhão. Por outro lado, 108 cidades (1,9%) não demonstraram alta prioridade em nenhum indicador.
Layla Saad, representante do Unicef no Brasil, destacou que a iniciativa traz clareza às diferenças regionais, ajudando a fortalecer a capacidade municipal de enfrentar os desafios e orientar políticas públicas, programas e orçamentos eficazes.
Panorama
A maioria dos municípios com alto número de indicadores críticos está nos estados do Pará, Acre, Amazonas, Maranhão e Mato Grosso. Entre as 30 cidades com piores desempenhos, 24 estão na região Norte e quatro no Maranhão, as demais em Mato Grosso.
A nota técnica do estudo revela que esses locais, com economias baseadas em atividades primárias, têm maior exposição a riscos climáticos e menor capacidade de resposta.
Regiões mais vulneráveis
A investigação sobre a qualidade do ar revelou que 94% dos municípios do Norte registraram dias com partículas finas acima do recomendado pela OMS, o que se atribui a queimadas. No Sudeste, embora apenas 39% dos municípios estejam em alta prioridade, eles congregam 72% da população infantil, com a poluição do ar associada a transportes e indústrias.
Sobre eventos climáticos extremos, 91% dos municípios do Norte e 68% do Sul deram sinal de atenção, especialmente por chuvas intensas. Já em infraestrutura urbana, o Norte (78%) e Nordeste (46%) mostram alta prioridade, com desafios de dispersão geográfica e escassez hídrica afetando diretamente.
No contexto escolar, o Nordeste (52%) e Sudeste (39%) lideram em espaços sem áreas verdes.
Plataforma
A plataforma Painel Crianças e Meio Ambiente permite que líderes municipais e cidadãos acessem os diagnósticos dos 5.571 municípios brasileiros e identifiquem os principais déficits. São oferecidas 50 recomendações para situações de alta prioridade.
Para Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação da Vital Strategies, a ferramenta é crucial para promover ações preventivas.
“Um ambiente seguro, saudável e sustentável é um direito e elemento essencial para desenvolvimento integral na infância e adolescência. Permite um olhar qualificado e individualizado para o território”, afirmou.
