Um recente estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, revela que muitos pais no Brasil ainda consideram a palmada uma ferramenta de disciplina em vez de um ato de violência. A pesquisa, que entrevistou 214 pessoas em comunidades de três cidades brasileiras, destaca um panorama preocupante sobre a visão de disciplina física na educação infantil.
Percepções Distintas
O levantamento apontou que, para algumas famílias, diferenciar uma palmada de um espancamento ainda é um dilema. Um entrevistado no Rio de Janeiro afirmou que acredita na existência de “uma forma de bater educando”. Esse conjunto de declarações reflete a dificuldade em distinguir claramente entre violência física e medidas de disciplina.
Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, ressalta que, apesar das legislações protetivas existentes, é crucial uma abordagem preventiva que mobilize comunidades a reconhecer a violência em qualquer forma que se apresente. “As famílias sequer consideram o tapa ou a chinelada como violência. Pelo contrário, elas distinguem a palmada do espancamento que elas acham, de fato, errado”, observou ela.
Desafios Legais e Sociais
A Lei Menino Bernardo, mais conhecida como Lei da Palmada, completou 12 anos, mas ainda é pouco conhecida ou aplicada pelas famílias brasileiras. A legislação, que é parte do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), visa proteger crianças e adolescentes de qualquer forma de punição corporal.
Segundo Teixeira, para que a lei seja efetiva, é necessário sensibilizar os pais através de uma comunicação mais clara e eficiente. “O que o estudo mostra é que essa lei é pouco conhecida pelas famílias e é interpretada a partir de normas sociais que ainda legitimam a violência como forma de educar”, enfatiza.
Análise da Realidade Comunitária
Das pessoas ouvidas no estudo do Unicef, 123 vivem em regiões como a Grande Pavuna e Grande Jacarepaguá no Rio de Janeiro, 37 são do bairro do Ibura, no Recife, e 54 da Colônia Antônio Aleixo e comunidade Parque das Tribos em Manaus. Os pesquisadores identificaram que a violência ainda é utilizada como uma forma equivocada de “endireitar” o comportamento infantil.
A pesquisadora do Unicef destacou que a violência contra crianças transcende barreiras sociais e acontece em todas as camadas da sociedade. “Quando se trata de violência contra crianças e adolescentes, a violência ainda é naturalizada”, afirmou.
Educação Não Violenta
O estudo sugere que é crucial orientar pais sobre como educar sem o uso de violência. A psicóloga infantil Mara Gomes explicou que na primeira infância, as crianças passam por um intenso desenvolvimento cognitivo, emocional e social, o que demanda uma abordagem acolhedora e educativa em vez de punitiva.
Segundo ela, quando os pais recorrem à violência, as crianças podem apresentar sinais de submissão ou desenvolver comportamentos agressivos. A especialista encoraja os pais a estabelecerem limites com uma comunicação honesta desde cedo.
Paralelamente, a pedagoga Marília Paiva defende que professores também sejam treinados para lidar com conflitos de forma empática, ajudando as crianças a se regularem emocionalmente. “A palmada não educa a criança e constrange, além de gerar medo”, ressalta Paiva.
Desse modo, o Unicef sugere uma série de ações aos governantes, como fortalecer a prevenção à violência e promover campanhas educativas que encham as famílias de recursos não violentos para gestão do comportamento infantil.
